Aquaman: um bom filme para fugir dos delírios do mundo real

TEXTO: Lisandra Suzuki*/ FOTO: Jason Momoa como Aquaman (CRÉDITO: Divulgação)

Desde que o filme solo do herói Aquaman foi anunciado, a maioria torceu o nariz, por um motivo ou outro. Aquaman nunca foi um super-herói muito popular do Universo DC, e “falar com peixes” não parecia ser um poder muito “badass”, aliás nem muito útil, a ponto de ser até motivo de piada nos desenhos do Bob Esponja (já viram como é o “Homem Sereia”? Pois é…) e no seriado The Big Bang Theory. Além disso, Jason Momoa pode ser lindo, mas nunca foi lá essas coisas como ator.

Mas não é que deu certo juntar tudo isso e colocar James Wang (diretor do sétimo Velozes e Furiosos) na direção? Sim, o diretor nascido na Malásia conseguiu trazer o que faltava aos filmes da DC: cores vivas e bom humor. Como se A Pequena Sereia e Velozes e Furiosos tivessem se misturado de maneira improvável, mas bem-sucedida.

A história em si segue o padrão de boa parte dos filmes de heróis. Há uma breve introdução mostrando as origens meio atlante, meio humana, de Aquaman (ou Arthur Curry), e como ele se afastou do reino ao qual tem direito como herdeiro do trono.

Já nos dias atuais, pouco tempo depois dos acontecimentos de Liga da Justiça (2017), Aquaman deve recuperar um instrumento de poder (previsivelmente, um tridente), juntamente com a guerreira atlante Mera (Amber Heard, de Diário de Um Jornalista Bêbado), antes que o reino de Atlântida caia nas mãos de seu meio-irmão Orm (Patrick Wilson, de Invocação do Mal), que deseja unir as tribos para iniciar uma guerra contra os humanos.

Mas as semelhanças com os outros filmes de super-herói param aqui. Muitos heróis são traumatizados, carregam seu manto como se fosse um fardo ou enxergam seus poderes mais como uma maldição. Em Aquaman, no entanto, temos essencialmente um herói que, por mais que se sinta um “outcast” relutante com sua condição de realeza, se diverte largamente por ter os poderes que tem.

E aí fica impossível tirar sarro do tal poder de “falar com os peixes” ou de seu clássico uniforme laranja e verde (acredite, há momentos épicos envolvendo tudo isso!). E sim… isso só tem credibilidade para o público graças ao carisma do ator Jason Momoa, altamente adequado para dar esse tom “badass bem-humorado” ao herói.

Os outros personagens também estão muito bem caracterizados. Mera e a rainha Atlanna (Nicole Kidman, de Big Little Lies), mãe de Aquaman, fazem jus à nova safra de figuras femininas em filmes de ação, que não se limitam em ser salvas e participam ativamente dos combates e tomam decisões importantes à trama.

Jason Momoa, Amber Heard e Willem Dafoe em cena de Aquaman (FOTO: Divulgação)

 

O vilão Orm tem personalidade própria (outro ponto em que muitos filmes de super-herói, tanto da DC quanto da Marvel, falham) e possui motivações com as quais podemos nos identificar, ainda que usadas de maneira obviamente distorcida.

E há participações expressivas de outros personagens, como Nereus (Dolph Lundgren, de Mercenários), pai de Mera e líder da tribo Xebel, e Vulko (Willem Dafoe, que já foi o vilão Duende Verde do Homem Aranha de 2000), o mentor atlante designado por Atlanna para treinar o herói durante a juventude.

Como já mencionado, o filme teve a ousadia bem-vinda de varrer pra baixo do carpete de uma vez por todas a paleta dessaturada que tanto irritou os fãs da DC em filmes anteriores. Se em Mulher Maravilha as cores mais vibrantes já começaram a ser usadas para definir Themyscira, a ilha das Amazonas, como um mundo intocado e equilibrado, contrastando com o cinzento e corrompido “mundo dos homens”, em Aquaman seria totalmente injusto não utilizá-las, já que boa parte da ação ocorre no fundo dos mares. O visual é majestoso e colorido, digno da riqueza do mundo oceânico visto nos documentários da National Geographic e retratado em animações como Procurando Nemo.

Aliás, toda a concepção do reino de Atlântida foi feita com muito cuidado e riqueza de detalhes no design de vestimentas, naves, prédios e até nas criaturas marinhas, imprimindo as doses corretas de credibilidade e fantasia para esse mundo lendário e misterioso.

As cenas de batalha e combates nesse mundo também foram bem executadas, mesmo que com muito uso de CGI, com contornos épicos e grandiosos, dignas dos mais saudosos filmes de monstros japoneses.

É por tudo isso que Aquaman é o filme de herói certo para se ver nas férias de fim de ano, um deleite divertido para os olhos cansados de quem não aguenta mais ver os delírios do mundo real. Pegue sua pipoca tamanho gigante e mergulhe nesse mundo colorido sem medo.

Ah, sim! Há uma única cena extra durante os créditos, indicando um possível gancho para a continuação, já praticamente garantida pela Warner.

ASSISTA AO TRAILER

FICHA TÉCNICA

Aquaman
Nacionalidade: EUA
Ano: 2018
Duração: 143 minutos
Distribuição: Warner
Classificação indicativa: 12 anos

*LISANDRA SUZUKI é bióloga formada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e criadora da Caverna POP.

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LALÁ RUIZ, jornalista, curiosa e apaixonada por cultura, comida e viagens, sem qualquer coerência no quesito preferência. Nascida em São Paulo, Capital, e radicada em Campinas, interior paulista, formada em Comunicação Social pela PUC-Campinas e trabalhou durante 26 anos na mídia impressa da cidade, tendo atuado nos jornais Correio Popular, Diário do Povo e Notícia Já.

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