BoJack Horseman: uma animação inteligente para adultos

TEXTO: Lisandra Suzuki*/ FOTOS: Netflix

BoJack Horseman é uma série animada que estreou em 2014, exclusivamente pela Netflix, sem grandes pretensões. A primeira temporada dividiu a crítica e o público, mas todos concordaram que, ao longo dos episódios, a série foi crescendo em dramaticidade e complexidade, terminando de maneira promissora. A partir da segunda temporada, o seriado se consolidou como uma das melhores séries animadas para o público adulto, ao lado de outras como Rick and Morty, Os Simpsons e South Park.

E não é sem razão. Num universo em que boa parte dos personagens é antropomorfizado, a começar pelo protagonista, questões espinhosas como depressão, dependência de drogas e comportamento autodestrutivo são mostradas de maneira bastante realista, ainda que com visual alegórico. Polêmicas envolvendo aborto, uso de armas e os perigos da internet e redes sociais também são mostradas de maneira que soariam absurdas, se não fossem melancolicamente reais e próximas do que vivemos.

O cenário aqui é Hollywood. BoJack (voz de Will Arnett, de Arrested Development, que também escreve boa parte do roteiro dos episódios) é um ator que teve seu apogeu na década de 90 com a family sitcom Horsin’ Around, na qual interpretava um cavalo que cuidava de três órfãos humanos, e que nos tempos de agora é um cinquentão que caiu no ostracismo e está à procura de seu grande retorno aos holofotes da fama.

Seu comportamento egocêntrico e egoísta aparece logo nos primeiros episódios, no modo como se relaciona com colegas de trabalho e amigos. Mulherengo e indisciplinado, é um ator com quem quase ninguém quer trabalhar.

No entanto, à medida que o seriado avança, vemos que há mais camadas em BoJack Horseman do que sugere essa personalidade “escrota” de superfície. Em excelentes arcos de história, descobrimos que BoJack cresceu num lar sem amor e regado a abusos verbais constantes que ainda ecoam em sua difícil relação com a mãe.

Vemos também que BoJack é alguém extremamente inseguro e solitário, e que sua necessidade de ser o centro das atenções de todos acaba levando-o a um comportamento autodestrutivo, como quando se reencontra com Sarah Lynn, ex-atriz mirim que interpretou a órfã caçula de Horsin’ Around e que se tornou uma cantora pop viciada em cocaína e remédios, com quem embarca numa road trip embalada por pó e álcool que faria Hunter Thompson morrer de inveja. Percebemos, portanto, que BoJack é alguém que quer redenção, mas que no fundo não se sente digno disso.

Todos os personagens recorrentes, aliás, se mostram multidimensionais, e com isso, o espectador certamente poderá se identificar com algum deles. A gata persa Princess Carolyn (voz de Amy Sedaris), por exemplo, é a mulher que luta para se mostrar competente e eficiente a todo custo num meio de extrema concorrência que é o showbizz (ela é a agente de BoJack Horseman e outras celebridades), mas que falha em conseguir se realizar pessoalmente. Na casa dos 40, Princess Darolyn se sente pressionada para ser mãe e seus relacionamentos naufragam em meio a sabotagens emocionais impostas por ela mesma.

Já Diane Nguyen (voz de Alison Brie), a vietnamita nascida nos Estados Unidos contratada para ser autora fantasma da biografia de BoJack (e que acaba se tornando a amiga que mais entende o ator-cavalo), é a mulher jovem, inteligente e feminista que quer fazer algo relevante com seu trabalho de escritora, mas que acaba refém de uma sociedade que só se importa com a imagem, condenada a escrever tweets para celebridades e matérias rasas num site de fofocas. É com ela que temos um excelente episódio sobre aborto, quando a questão é debatida apenas por homens brancos em um telejornal.

Amarrando todas as situações e entrelaçando as histórias dos diversos personagens de maneira coerente, o roteiro é tão bem escrito que o seriado se deu o direito de, na terceira temporada, ter um episódio praticamente todo sem fala (…)

E dentro de um núcleo mais cômico do seriado, temos Todd Chavez (voz de Aaron Paul, o Jesse de Breaking Bad, e um dos produtores executivos da série), o humano puro, ingênuo, desapegado (e desempregado!) que vive na mansão de BoJack há cinco anos e que, juntamente com Mr. Peanutbutter (voz de F. Paul Thompson), o ator-cachorro golden retriever otimista e noivo de Diane Nguyen (por quem BoJack nutre uma rivalidade), tem ideias mirabolantes e absurdas para ganhar dinheiro – apesar de normalmente não darem certo, não tiram o bom humor da dupla e rendem interações hilárias e por vezes comoventes com os personagens mais dramáticos.

Há também participações muito especiais de atores conhecidos no seriado. Lisa Kudrow (a Phoebe de Friends) aparece na segunda temporada como Wanda Pierce, a coruja produtora executiva de TV que acordou de um coma de 30 anos e se torna a namorada de BoJack por um tempo, protagonizando um arco de história muito interessante sobre relacionamentos a dois. Stanley Tucci (Jogos Vorazes) interpreta Herb Kazzaz, antigo parceiro de comédia de BoJack e idealizador da sitcom Horsin’ Around, que perdeu amizade com o ator após se sentir traído por ele. Olivia Wilde (a Treze de House) faz a voz de Charlotte Moore, a cerva por quem BoJack foi apaixonado quando jovem e que ele procura anos mais tarde, resultando em um reencontro recheado de melancolia e culpa que é um dos momentos mais dramáticos e pesados do seriado. Além disso, diversos atores interpretam a si próprios em situações bastante cômicas, como Naomi Watts, Daniel Radcliffe, Vincent D’Onoffrio e até Sir Paul McCartney.

Mas é, sem dúvida, o roteiro inteligente de BoJack Horseman o seu principal trunfo. Amarrando todas as situações e entrelaçando as histórias dos diversos personagens de maneira coerente, o roteiro é tão bem escrito que o seriado se deu o direito de, na terceira temporada, ter um episódio praticamente todo sem fala, intitulado Fish Out of Water, no qual BoJack vai ao Pacific Ocean Film Festival, uma mostra de cinema no fundo do mar, no qual deve promover o filme de que é protagonista, Secretariat, baseado na vida de seu ídolo de infância.

Na quinta temporada, há outro momento de brilhantismo, totalmente diferente: um episódio praticamente inteiro dedicado a um monólogo do protagonista num funeral. De um extremo a outro, o seriado consegue manter o tom existencialista sem perder o ritmo e prendendo a atenção de quem, a esta altura, já se importa com o que vai acontecer com esses interessantes personagens.

BoJack Horseman é um seriado animado adulto inteligente que ainda deve sobreviver por mais alguns anos, se mantiver a excelente qualidade. Todas as temporadas estão disponíveis no catálogo da Netflix, inclusive a quinta temporada, que estreou no dia 14 de Setembro (assista ao trailer abaixo).

*LISANDRA SUZUKI é bióloga formada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e criadora da Caverna POP.

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LALÁ RUIZ, jornalista, curiosa e apaixonada por cultura, comida e viagens, sem qualquer coerência no quesito preferência. Nascida em São Paulo, Capital, e radicada em Campinas, interior paulista, formada em Comunicação Social pela PUC-Campinas e trabalhou durante 26 anos na mídia impressa da cidade, tendo atuado nos jornais Correio Popular, Diário do Povo e Notícia Já.

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