Direto da estante: uma simpática trama sobre a paixão por livros

FOTO: Depositphotos

Quem gosta de livros sabe como é difícil sair de uma livraria sem comprar pelo menos um pocket book. A consequência disso, quase sempre, é uma pilha de volumes juntando pó enquanto aguardam para ser lidos e que ainda enfrentam a concorrência de novas aquisições, de volumes doados pelas amigas ou até mesmo de títulos já apreciados por outros moradores da casa que você colocou na lista “tenho de ler só não sei quando”.

Levando em conta que a grana está curta e que não tenho mais como acomodar novos livros na estante, decidi não comprar um novo até ler todos os que tenho acumulados em casa. E o primeiro que escolhi para iniciar essa tarefa se revelou uma simpática história de amor aos livros, sejam eles de papel, e-Books, novos, usados, audiolivros ou criptografados. De autoria de Robin Sloan, a obra tem o sugestivo nome de A Livraria 24 Horas do Mr. Penumbra.

Lançado no Brasil em 2013 pela editora Novo Conceito, de Ribeirão Preto (SP), o livro mostra como a chegada de um novo funcionário à livraria do senhor Ajax Penumbra vai desencadear uma série de acontecimentos envolvendo gênios que atuam no alto escalão do Google, uma sociedade secreta e até mesmo o codex vitae do tipógrafo italiano Aldus Manutius, personagem real que viveu na Itália na Idade Média e inventou, entre outras fontes, o itálico.

Clay Jannon é um designer desempregado em consequência da crise econômica que abalou os Estados Unidos em 2008. Apaixonado por livros e precisando pagar as contas, ele aceita o trabalho de atendente do turno da noite nessa livraria um tanto peculiar e claramente deficitária — localizada ao lado de um clube de striptease em São Francisco, quase não tem clientes pagantes e vive às moscas na maior parte do tempo.

Porém, Clay começa a notar que o estabelecimento tem uma clientela excêntrica, que não procura pelos best-sellers, mas sim por obras guardadas nas mais altas e empoeiradas estantes. São obras criptografadas e que o atendente, com a ajuda dos amigos e, em determinado momento, com o apoio do próprio Penumbra, decide desvendar. Isso o leva a desbravar um novo mundo ligado à tipografia e que envolve, inclusive, a obra de seu escritor favorito.

LEIA TRECHO

“Contei aos meus amigos sobre a livraria e alguns deram uma passada lá para admirar as estantes e me ver subir até as alturas empoeiradas. Eu normalmente os convenço a comprar algo: um romance de Steinbeck, alguns contos de Borges, um volume grosso de Tolkien… todos esses autores evidentemente do interesse do Mr. Penumbra, porque ele estoca a obra completa de todos eles. No mínimo, meus amigos saem levando um postal. Há uma pilha deles na mesa da frente. Mostram a fachada da loja desenhada a bico de pena, um design de linha fina tão velho e fora de moda que ficou estiloso de novo. Penumbra os vende por um dólar cada. Mas vender um dólar após algumas horas não paga o meu salário. Não consigo imaginar o que paga meu salário. Não consigo imaginar nem o que mantém essa loja funcionando.
Há uma cliente que já vi duas vezes, uma mulher que, estou quase certo, trabalha na Booty’s ao lado. Tenho quase certeza disso porque nas duas vezes seus olhos estavam delineados como se fossem os de um guaxinim, e ela cheirava a fumaça. Tinha um belo sorriso e cabelo loiro-acinzentado. Não sei quantos anos tem, pode ter 23 ou ter sensacionais 31, nem seu nome, mas sei que gosta de biografias. Em sua primeira visita, ela mexeu e olhou os livros das prateleiras da frente num círculo lento, arrastando os pés e fazendo movimentos de alongamento distraidamente, então veio até o balcão principal.
— Você tem aquele sobre o Steve Jobs? — perguntou. Ela vestia uma jaqueta acolchoada de gola alta por cima de uma camisetinha rosa e jeans, e sua voz era levemente anasalada.
Franzi o cenho e disse:
— Provavelmente não. Mas vou conferir.
Penumbra tem um banco de dados que roda num Mac Plus bege decrépito. Digitei o nome de seu criador no teclado e o Mac emitiu um zunido baixo, o som do sucesso. Ela estava com sorte. Inclinamos nossas cabeças para examinar a seção de biografias e lá estava: uma única cópia, reluzente como nova. Talvez tivesse sido um presente de Natal para um pai que era executivo da área tecnológica, mas que não lia livros. Ou talvez o papai tecnológico tenha preferido ler em seu Kindle. Em todo caso, alguém o havia vendido ali, e ele passara pelo crivo de Penumbra. Um milagre.
— Ele era tão bonitão — disse a encasacada, segurando o livro na mão com o braço quase estendido. Steve Jobs espiava da capa branca com a mão no queixo, usando óculos redondos que se pareciam um pouco com os do Mr. Penumbra.
Uma semana depois, ela voltou saltitante pela porta de entrada. Estava com um grande sorriso, batia palmas de leve em silêncio (isso fazia com que parecesse mais ter 23 que 31 anos) e disse:
— Ah, foi ótimo! Agora veja. — Ela pareceu séria. — Ele escreveu outro sobre Einstein. — Ela estendeu o celular, que mostrava uma página de produto da Amazon para a biografia de Einstein escrita por Walter Isaacson.
— Eu o achei na internet, mas pensei que pudesse comprá-lo aqui.
Vamos ser claros: isso era inacreditável. Aquele era o sonho de um livreiro. Era uma stripper indo contra a maré da história, que gritava: ‘Pare!’. E então descobrimos, com as cabeças inclinadas e esperançosas sobre a tela, que a seção de biografias de Penumbra não tinha Einstein: Sua Vida, Seu Universo. Havia cinco livros sobre Richard Feynman, mas nada sobre Albert Einstein. Assim falou Penumbra.
— Sério? — A encasacada fez biquinho. — Droga. Bem, acho que vou comprar na internet. Obrigada. — Ela saiu pela noite e até agora nunca voltou.
Vou ser sincero. Se eu tivesse de fazer uma lista com as minhas melhores experiências em compra de livros em termos de conforto, facilidade e satisfação, a lista seria esta, e nesta ordem:
1. A livraria independente perfeita, como a Pygmalion, em Berkeley.
2. Uma Barnes & Noble grande e bem iluminada. Sei que eles são uma megastore, mas, vamos falar a verdade: essas lojas são legais. Especialmente as que têm sofás grandes.
3. A seção de livros dos supermercados Walmart. (Fica ao lado da terra para vasos de plantas.)
4. A biblioteca que empresta livros a bordo do navio U.S.S. West Virginia, um submarino nuclear muito abaixo da superfície do Pacífico.
5. A Livraria 24 Horas do Mr. Penumbra.”

O escritor Robin Sloan (CRÉDITO FOTO: Justin Kaneps)

 

O AUTOR

A Livraria 24 Horas do Mr. Penumbra é o primeiro romance do norte-americano Robin Sloan, que já havia publicado, em 2008, a novela curta Annabel Scheme. Formado em economia e cocriador da revista literária Aveia, ele trabalhou no Twitter e em outras empresas de tecnologia. Tem mais dois livros publicados, ambos sem edição em português: Ajax Penumbra 1969 (2013) e Sourdough: A Novel (2017). Espero que sejam tão gostosos de ler como A Livraria 24 Horas…

FICHA TÉCNICA

A Livraria 24 Horas do Mr. Penumbra
Autor: Robin Sloan
Editora: Novo Conceito
Páginas: 288
Ano de publicação no Brasil: 2013
Preço: R$ 39,90 (papel) e R$ 14,90 (eBook)

EM TEMPO: Aguardem em breve mais um texto sobre os livros da minha estante.

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LALÁ RUIZ, jornalista, curiosa e apaixonada por cultura, comida e viagens, sem qualquer coerência no quesito preferência. Nascida em São Paulo, Capital, e radicada em Campinas, interior paulista, formada em Comunicação Social pela PUC-Campinas e trabalhou durante 26 anos na mídia impressa da cidade, tendo atuado nos jornais Correio Popular, Diário do Povo e Notícia Já.

Website Comments

  1. Neno
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    Lalá muito legal ! Livros esquecidos na estante por um instante nos transportam a outros enredos. Fiquei curioso para ler este.

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