Clarice Lispector e as inquietações femininas nos anos 1950 e 1960

FOTO: Divulgação

Correio Para Mulheres, livro recém-lançado pela Editora Rocco, traz à tona uma faceta pouco lembrada de Clarice Lispector (1920-1977), reconhecida como uma das mais importantes escritoras do século 20. Ao longo das décadas de 1950 e 1960, Clarice, que também era jornalista, publicava, sempre sob pseudônimos, conselhos e dicas em diferentes colunas e suplementos femininos da imprensa brasileira.

Esses escritos, considerados pequenas pérolas literárias do estilo clariceano, revelam ao leitor os hábitos e as inquietações da mulher brasileira da época. Organizados por Aparecida Maria Nunes, doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), eles foram inicialmente publicados nos volumes Correio Feminino (2006) e Só para Mulheres (2008), e somente agora foram reunidos num único livro.

A atuação de Clarice Lispector como “jornalista feminina” começou quando ela aceitou o convite do cronista Rubem Braga (1913-1990) e se aventurou na elaboração de páginas dedicadas às mulheres no periódico Comício, criado em 1952, sob o pseudônimo de Tereza Quadros.

No início dos anos 1960, ela dava conselhos de beleza e dicas de como manter uma personalidade cativante para conquistar o homem amado, dessa vez com o pseudônimo de Helen Palmer, nas páginas do Correio da Manhã. Também foi a ghost writer da atriz Ilka Soares na coluna Só Para Mulheres, publicada no Diário da Noite.

Nesses textos, Clarice dá conselhos e dicas sobre comportamento e etiqueta, relações sociais e amorosas, cuidados domésticos, harmonia familiar, educação dos filhos e outros temas ligados às preocupações da brasileira de classe média, que ensaiava os primeiros passos na vida profissional e necessitava aprender a conciliar os papéis de mulher, dona de casa e mãe. Leia trecho abaixo:

Para as que trabalham fora…

Se você trabalha fora, comanda ou dirige equipes, trata de assuntos comerciais com homens, interessa-se, por força da profissão, pela cotação do mercado, pela contabilidade mecanizada, enfim, se você é obrigada a deixar de lado as maneiras delicadas e muito femininas, muito cuidado! O grande perigo que a ameaça é a masculinização de seus gestos, de sua palestra, de seus pensamentos. É muito frequente ocorrer isso. Mulheres que, em essência e nas formas, são bastante femininas, e, no entanto, deixam-se influenciar pela linguagem e pelos assuntos áridos do mundo dos negócios. Sentem que os homens, à sua volta, aos poucos vão perdendo o interesse inicial e retraindo-se a uma reserva fria, e elas não sabem por quê. Recebem muitos convites para jantar, ainda, mas os galanteios começam a rarear. Conversa de ‘homem para homem’ é o que parece que os seus antigos admiradores passam a desejar. Por quê? Olham-se ao espelho, não encontram falhas na beleza ou na elegância, e continuam a não compreender. Pois, minhas amigas, o que acontece é que elas esqueceram a sua condição de mulher. Se observarem a si próprias nos seus gestos, no seu tom de voz, se ouvirem suas próprias palavras, ficarão espantadas. Onde terão ficado a antiga coqueteria, a graciosidade que dantes as tornavam centro das atenções masculinas? Quando conversam, já não sorriem, as frases são objetivas, geladas, e nenhuma acolhida cordial aproxima-a do seu interlocutor.
Por favor, amigas que vivem no mundo dos negócios! Sejam eficientes, trabalhadoras, objetivas, mas não permitam que isso afete a sua feminilidade. Estudem-se com cuidado, quando notarem uma mudança no cavalheirismo masculino. É esse o sinal de perigo.”

FICHA TÉCNICA

Correio Para Mulheres
Autora: Clarice Lispector
Editora Rocco
400 páginas
Preço: R$ 49,90 e R$ 29,90 (eBook)

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(*Com informações Assessoria de Imprensa)

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LALÁ RUIZ, jornalista, curiosa e apaixonada por cultura, comida e viagens, sem qualquer coerência no quesito preferência. Nascida em São Paulo, Capital, e radicada em Campinas, interior paulista, formada em Comunicação Social pela PUC-Campinas e trabalhou durante 26 anos na mídia impressa da cidade, tendo atuado nos jornais Correio Popular, Diário do Povo e Notícia Já.

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