Cinema: leia a crítica do longa-metragem Um Lugar Silencioso

TEXTO: Lisandra Suzuki*/ CRÉDITO FOTO: Jonny Cournoyer (Divulgação)

Vivemos numa era da humanidade em que há excesso de estímulos virtuais, sejam eles visuais ou auditivos, mas em contrapartida, com crescente alienação ao que acontece em tempo real. Em Um Lugar Silencioso (A Quiet Place), filme dirigido e estrelado por John Krasinski (The Office), os seres humanos devem fazer silêncio quase absoluto e observarem muito bem o que acontece ao seu redor. Não por “paz de espírito” ou por “qualidade de vida”, mas para simplesmente permanecerem vivos.

Desde o primeiro minuto do filme, ao conhecermos a família Abbott, composta por Lee (Krasinski), sua esposa Evelyn (Emily Blunt, a futura Mary Poppins e casada com Krasinski na vida real) e os três filhos, percebemos que uma catástrofe dizimou a humanidade a ponto de deixar casas e lojas desertas. Em jornais largados nas ruas, podemos ler manchetes que contam que o barulho atrai monstros. A família se comunica com linguagem de sinais, aprendida devido à surdez da filha mais velha, Regan (Millicent Simmonds), e todos os seus gestos são calculados para o mínimo de ruído.

Cena de Um Lugar Silencioso (CRÉDITO: Paramount Pictures)

 

O desfecho dessa primeira cena já nos arremessa brutalmente à nova realidade do mundo e, a partir daí, o espectador irá passar mais quase 90 minutos de tensão, levando a mão à boca instintivamente em diversos momentos. Pois se nesses primeiros minutos ele certamente já ficou preocupado em ver que um membro da família Abbott é surdo, o que sentirá ao perceber que, quando o filme na cena seguinte avança um ano, Evelyn está nos últimos estágios de gravidez? Pois é.

Não há em nenhum momento do filme uma explicação para a chegada dessas criaturas que brutalizam qualquer um que faça barulho. Basicamente aqui veremos como uma família em particular lida com uma tragédia de proporções mundiais e adapta seu ambiente e sua própria dinâmica a essa situação. Ao invés de cair na armadilha de se tornar um slasher/monster movie qualquer, o filme consegue fazer com que nos importemos com todos os membros da família Abbott, pois todos possuem personalidades muito bem definidas e a relação entre eles é bem construída, genuína e amorosa, sem estereótipos.

As situações são previsivelmente perturbadoras, mas o silêncio (ou a necessidade de) aqui age como um elemento catalisador da tensão que pode beirar o insuportável, uma vez que nenhum personagem poderá expressar impulsiva e verbalmente reações de pânico ou dor. Nesse sentido, a atuação de todo o elenco está primorosa e convincente, especialmente a de Emily Blunt, que protagoniza a cena mais angustiante do filme, e a de Millicent Simmonds, que é realmente surda e ajudou ativamente os colegas de elenco no uso adequado da linguagem de sinais.

Para quem quer fugir um pouco do barulho e da agitação das sessões dos filmes de ação, Um Lugar Silencioso é (sem trocadilho) perfeito. O filme é curto, eficiente e extremamente bem produzido e dirigido, sem excesso de efeitos visuais e obviamente com muito apuro na direção de som. Um filme que certamente aguçará – e muito – os seus sentidos.

*LISANDRA SUZUKI é bióloga formada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e criadora da Caverna POP.

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LALÁ RUIZ, jornalista, curiosa e apaixonada por cultura, comida e viagens, sem qualquer coerência no quesito preferência. Nascida em São Paulo, Capital, e radicada em Campinas, interior paulista, formada em Comunicação Social pela PUC-Campinas e trabalhou durante 26 anos na mídia impressa da cidade, tendo atuado nos jornais Correio Popular, Diário do Povo e Notícia Já.

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