Reflexões de uma “velha jornalista” sobre The Post: A Guerra Secreta

FOTOS: Divulgação

Aproveitei a segunda-feira de Carnaval para assistir ao longa-metragem The Post: A Guerra Secreta (The Post, EUA, 2017, direção de Steven Spielberg). É claro que gostei. Como jornalista que começou a trabalhar em redação em 1989 e, portanto, acompanhou as mudanças pelas quais a profissão e os meios de comunicação passaram com o advento da internet, é óbvio que saí da sala de cinema um tanto saudosa de um passado nem tão distante assim. Principalmente da forma como se fazia jornal, desde o trabalho de reportagem até o produto final.

Nestes tempos em que qualquer pessoa com um smartphone na mão e perfil em rede social se autointitula “jornalista”, The Post: A Guerra Secreta nos lembra que fazer jornalismo investigativo, “de denúncia”, é muito mais complexo do que tacar a câmera na cara de alguém ou escrever textão no Facebook. É preciso, entre outras coisas, se indignar de verdade com os fatos que se apresentam, cultivar fontes, ter “sangue nos olhos”, liberdade (e apoio) para exercer a função e um salário digno (jornalismo é profissão, não trabalho voluntário).

Também nos lembra que concorrência é fundamental, afinal, a trama começa com um tremendo furo dado pelo jornal The New York Times. Era 1971. Após revelar a existência de relatório que prova que o governo mentiu sobre o papel e as intenções dos EUA na Guerra do Vietnã (1955-1975), o The New York Times é impedido pela Justiça de continuar a abordar o assunto (as famosas “suítes”). O The Washington Post, até então um jornal local em vias de abrir o capital no mercado de ações, entra na história e, numa decisão arriscada do editor Ben Bradlee (Tom Hanks) e da proprietária Kay Graham (Meryl Streep), publica o tal relatório.

Indicado a duas categorias do Oscar 2018 (melhor filme e melhor atriz para Meryl Streep), The Post retrata os bastidores desse episódio e, como escrevi acima, mostra como era o “caminho” da notícia. Achei a reconstituição de época muito bacana. Principalmente porque, quando comecei a trabalhar em jornal, as coisas ainda eram mais ou menos desse jeito: a gente usava máquina de escrever, o telefone era de disco, o cotidiano mais lento, as pessoas fumavam na redação (o fumacê só foi eliminado quando os computadores substituíram de vez as velhas Remingtons) e mulheres em funções de comando eram vistas com desconfiança. Recomendo.

Assista ao trailer:

EM TEMPO

Depois de The Post, agora me sinto obrigada a rever Todos os Homens do Presidente (All The President’s Men, EUA, 1976, direção de Alan J. Pakula), sobre o escândalo de Watergate. Afinal, uma coisa está de certa forma ligada à outra, não é mesmo?

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LALÁ RUIZ, jornalista, curiosa e apaixonada por cultura, comida e viagens, sem qualquer coerência no quesito preferência. Nascida em São Paulo, Capital, e radicada em Campinas, interior paulista, formada em Comunicação Social pela PUC-Campinas e trabalhou durante 26 anos na mídia impressa da cidade, tendo atuado nos jornais Correio Popular, Diário do Povo e Notícia Já.

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