A representatividade negra chega, enfim, aos filmes de super-heróis

TEXTO: Lisandra Suzuki*/ FOTOS: Estúdios Disney

Ao final de Capitão América: Guerra Civil (2016), T’Challa se encontra com o vilão Helmut Zemo, assassino de seu pai, T’Chaka, rei de Wakanda, e causador da discórdia entre os Vingadores. E, em vez de matá-lo, apenas o prende e diz: “A vingança consumiu você. Está consumindo os dois (Capitão América e Homem de Ferro). Eu cansei de deixar ela me consumir”. É com essa frase de efeito que o herói Pantera Negra marca sua primeira participação nos filmes da Marvel Studios, iniciando o hype para o primeiro filme solo do personagem, que acaba de estrear no Brasil.

O filme começa contando a origem do primeiro Pantera Negra, que unificou as cinco tribos africanas em guerra pelo mineral vibranium vindo num meteoro, transformando-as numa única nação, Wakanda, que se tornou uma potência tecnológica, mas escondida e isolada do resto do mundo. Já nos dias atuais, vemos T’Challa (Chadwick Boseman) retornando à Wakanda, após os eventos de Capitão América: Guerra Civil, para assumir o trono como rei. Ele deverá, no entanto, de lidar com as consequências de ações perpetradas por seu pai T’Chaka e enfrentar Erik Killmonger Stevens (Michael B. Jordan, de Creed), filho de seu tio N’Jobu, que cresceu nos EUA e se tornou um black ops.

Embora a fórmula já conhecida de filmes da Marvel esteja ali presente, é inegável que Pantera Negra trouxe alguns elementos que o tornam original. Embora aqui o vilão seja novamente alguém com propósitos de vingança e tomada de poder, é exatamente a sua existência que fará com que T’Challa questione o verdadeiro legado de seus antepassados para Wakanda e use essa reflexão para tomar decisões mais acertadas, tanto como líder quanto como defensor de seu reino.

Aliás, cada personagem é muito bem desenvolvido, não há participações gratuitas e desperdício de talento. Praticamente todo o elenco é composto de atores negros descendentes de africanos, como a atriz mexicana de origem queniana Lupita N’yongo (Doze Anos de Escravidão), o ator inglês de origem ugandense Daniel Kaluuya (Corra!) e a atriz americana de ancestrais zimbabuanos Danai Gurira (The Walking Dead), e cada um deles consegue dar vida própria ao seu personagem.

Aqui não houve tanto espaço para o humor, mas não significa que ele não exista; há uma leveza interessante trazida por Shuri (Letitia Wright, de Black Mirror), a irmã mais nova de T’Challa, que é um gênio da tecnologia (desculpa aí, Tony Stark, mas o traje que ela criou para o irmão deixa sua armadura no chinelo!), e do agente Everett Ross (Martin Freeman, o Bilbo da trilogia O Hobbit), um dos poucos personagens de raça branca no filme.

Além disso, todo o reino de Wakanda foi concebido de modo elegante e inteligente, tornando totalmente plausível dentro do universo de heróis a existência de um país africano que combina tradições milenares com alta tecnologia. Os cenários são todos inspirados em lugares reais do continente africano, como o Congo, Etiópia, Burundi, Ruanda.A figurinista Ruth E. Carter (conhecida por seu trabalho nos filmes Malcolm X e Amistad) se inspirou nas vestimentas de diversas tribos reais, como Masaai, Zulu, Xhosa e Surii, para criar o visual da Dora Milaje, a guarda real formada por guerreiras.

Ludwig Goränsson se valeu de gravações de músicos locais do Senegal e da África do Sul para criar o score do filme, que é entremeado por canções modernas compostas pelo rapper Kendrick Lamar. Tudo isso sob a direção segura do diretor negro Ryan Coogler, de apenas 31 anos, que já dirigiu Creed, o elogiado spin-off da franquia de filmes de Rocky.

Por fim, não podemos deixar de lado o fato de que é o primeiro longa-metragem dessa nova era de filmes de super-heróis a trazer um protagonista negro. Antes de Pantera Negra, a Marvel lançou 17 filmes, contando a partir do primeiro Homem de Ferro, de 2008. Desses 17, há três trilogias inteiras protagonizadas por um soldado branco norte-americano, por um playboy branco e milionário e por um ser mitológico branco e nórdico.

Se levarmos em conta as produções de outras franquias, como heróis da DC e X-Men, percebemos ainda mais como a participação de personagens negros relevantes é limitada. Pantera Negra, portanto, trouxe representatividade, identificação e diversidade até então praticamente inexistentes dentro do universo de filmes de super-herói. Certamente as crianças negras agora ficarão mais felizes em suas brincadeiras.

Mesmo que para você a importância do herói não seja a mesma, não deixe de conferir Pantera Negra. Não sou negra e tinha pouquíssima familiaridade com o personagem antes de assistir ao filme, mas saí da sala de cinema com uma sensação de encantamento pelo rico mundo do herói, e mal posso esperar para ver sua participação em Vingadores: Guerra Infinita. Desejo de coração uma longa vida ao rei de Wakanda.

PS: Há duas cenas durante os créditos finais, e ambas são interessantes.

*LISANDRA SUZUKI é bióloga formada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e criadora da Caverna POP.

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LALÁ RUIZ, jornalista, curiosa e apaixonada por cultura, comida e viagens, sem qualquer coerência no quesito preferência. Nascida em São Paulo, Capital, e radicada em Campinas, interior paulista, formada em Comunicação Social pela PUC-Campinas e trabalhou durante 26 anos na mídia impressa da cidade, tendo atuado nos jornais Correio Popular, Diário do Povo e Notícia Já.

Website Comments

  1. Marizilda Massucatto
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    Concordo absolutamente com a crítica acima. Também conhecia muito pouco do Pantera Negra, mas gostei muito de como foi apresentado! Sem contar que as mulheres são um espetáculo à parte, uma vez que são todas fortes, inteligentes e prontas a defender seu lar e seu rei! Parafraseando a Lisandra, e complementando, VIDA LONGA A WAKANDA E VIDA LONGA AO REI!

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