Electric Dreams: comparação com Black Mirror é injusta

TEXTO: Lisandra Suzuki*/ FOTOS: Amazon Video

Baseada em contos do escritor americano Philip K. Dick (1928-1982), a série antológica de ficção científica Philip K. Dick’s Electric Dreams, produzida pela Sony, estreou no Channel 4 do Reino Unido em Setembro de 2017 e chegou em 12 de Janeiro deste ano ao serviço de streaming da Amazon.

Logo no lançamento do primeiro trailer, comparações com Black Mirror, outra série britânica, foram inevitáveis. Mas, dado o material de origem e inspiração para Electric Dreams, são comparações injustas para ambas as séries: enquanto Black Mirror segue a linha de retratar e satirizar o comportamento da sociedade moderna frente a novas tecnologias, num futuro não muito distante (e bem dentro do que consideramos possível), Electric Dreams apresenta uma gama de temas e cenários mais variados, às vezes bem mais futuristas e fantasiosos, refletindo a riqueza das obras de K. Dick.

Dado que cada um dos dez contos escolhidos para a série foi adaptado e dirigido por pessoas diferentes, a série pode atrair uma maior variedade de público. Entretanto, o resultado pode ser considerado irregular, com episódios muito bons, e outros apenas medianos.

Há algo em comum em todos os episódios: todos tentam transmitir, em maior ou menor grau, o quanto era importante para K. Dick mostrar em suas histórias o fator “humano” num ambiente distópico e emocionalmente estéril. Por exemplo: o episódio Human Is, protagonizado pelo ator Bryan Cranston (Breaking Bad), que também é um dos produtores executivos da série, mostra uma diretora de missão espacial, Vera Herrick (Essie Davis), presa a um casamento de conveniência com o coronel Silas Herrick (Cranston), um herói militar que a despreza e trata de maneira rude.

No entanto, após voltar de uma missão no planeta Rexor IV, da qual é um dos dois únicos sobreviventes, Silas volta diferente, traumatizado, porém amoroso, o que desperta sentimentos conflitantes em Vera e desconfiança no governo. A questão aqui não é apenas saber se realmente Silas é essa pessoa tão mudada, mas o que fazer em relação a essa mudança… o que torna alguém “humano”?

Cena do episódio Kill Al Others

 

Outro episódio interessante é Kill All Others, no qual vemos um homem comum e trabalhador, Philip Noyce (Mel Rodriguez), pouco a vontade num mundo onde comprar é o que traz felicidade às pessoas e a propaganda invade os lares até nos momentos mais pessoais, como o barbear de todo dia. Os países da América do Norte se tornaram uma nação única e há apenas uma candidata à presidência (Vera Farmiga).

Em um de seus discursos, Philip ouve a Candidata dizer “kill all others” e fica horrorizado. No entanto, não há veiculação da mídia sobre isso e aparentemente ninguém mais ligou. Inconformado, Philip tenta investigar melhor o assunto e acaba se tornando um pária (“other”).

Misturando referências certamente conhecidas pelos fãs de sci fi, como o filme clássico dos anos 80 Eles Vivem!, a saga recente Jogos Vorazes e a obra-prima de Aldous Huxley Admirável Mundo Novo, o episódio é uma parábola evidente sobre regimes pseudodemocráticos e a apatia do povo que se comporta como gado.

QUESTIONAMENTOS

Já em The Commuter, vemos algo totalmente diferente… Ed (Timothy Spall), um trabalhador de uma estação de trem, tem uma vida difícil, com seu filho adolescente Sam (Anthony Boyle) tendo ataques epiléticos e surtos psicóticos cada vez mais frequentes. Um dia, uma misteriosa moça pede um tíquete para Macon Heights, que Ed diz não existir.

Intrigado, Ed um dia entra no trem e segue alguns passageiros que saltam no meio da estrada, num lugar sem nenhuma estação, e vai parar numa vila onde os traumas das pessoas foram apagados. Quando Ed volta pra casa, se depara com uma realidade diferente, na qual seu filho Sam nunca nasceu.

O questionamento óbvio aqui é se realmente seria justo ou ético poder apagar um trauma e, assim, mudar os rumos de sua vida quando há outras pessoas envolvidas. Mas, os diálogos dos minutos finais do episódio mostram que a resposta pode ser mais complexa do que se imagina, o que só enriquece o exercício de pensamento que ele suscita.

ELENCO

Como podem ver, os episódios são bem variados em seus temas. Vale destacar que há outros atores bem conhecidos na série como Anna Paquin (True Blood), Terrence Howard (Crash), Greg Kinnear (Sabrina) e Steve Buscemi (Cães de Aluguel), todos conseguindo fazer um bom trabalho mesmo que o episódio em que participem não seja de todo interessante.

Anna Paquin em cena do episódio Real Life

 

Minha sugestão é que assistam todos os dez e tirem as próprias conclusões, pois todos valerão as reflexões que despertam. E caso queiram comparar a série com o material de origem, a editora Aleph lançará no Brasil a coletânea dos dez contos que a inspiraram a produção na segunda quinzena de Março. Para quem não quer esperar e prefere ler em inglês, ela já está disponível, sendo facilmente encontrada tanta na versão impressa quanto digital.

*LISANDRA SUZUKI é bióloga formada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e criadora da Caverna POP.

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LALÁ RUIZ, jornalista, curiosa e apaixonada por cultura, comida e viagens, sem qualquer coerência no quesito preferência. Nascida em São Paulo, Capital, e radicada em Campinas, interior paulista, formada em Comunicação Social pela PUC-Campinas e trabalhou durante 26 anos na mídia impressa da cidade, tendo atuado nos jornais Correio Popular, Diário do Povo e Notícia Já.

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